De volta para o futuro




        Muito jovem, meu irmão cuidava de três crianças: Katie, Jeffrey e Peter. Uma noite, depois de colocá-los na cama, foi surpreendido pelo menino do meio que ainda estava acordado e tinha voltado pra sala de televisão. Davi chamou a atenção do menino, e Jeffrey, muito ligeiro na razão de ainda estar acordado. –Sabe o que é? Eu construí uma máquina do tempo no meu quarto e voltei três horas no tempo, por isso eu posso ficar acordado um pouco mais! Oh moleque!

          Como seria bom se eu pudesse voltar no tempo. Estudar mais pra uma prova. Não ter mentido pro pai a respeito daquela nota de matemática. Não ter roubado o chiclete na padaria. Por outro lado, imagina a confusão causada pelas viagens no tempo? Afinal, se fosse possível, não bagunçaria a vida? Na minha humilde e abalizada opinião eu acho que eu não seria quem sou.

          Todo mundo alteraria alguma coisa e provavelmente ‘desfaria’ também aquilo de que se orgulha: As boas ações. Bem se não dá para voltar, não dá para mudar o passado. Mas porque ficar remoendo em pensamentos de “eu devia ter...” e “Ah, se eu...” Esses raciocínios sempre me levaram à vitimização, rancor e amargura. Tornando-me cada vez mais infantil e paralisado. Vivendo como quem nunca conheceu a Deus, ou até pior, como quem experimentou e não gostou.

          Como será possível olhar para o futuro se o nosso passado é tão tenebroso? Menino faz coisa de menino. Amadurecer em Cristo significa deixar pra trás as coisas de menino e crescer olhando não apenas para o que somos, mas para o que seremos. A maioria das pessoas vive pensando mais no passado do que no presente. E são pouquíssimos os que pensam no futuro dos novos céus e nova terra. Muitas coisas podem nos remeter às viagens daquilo que aconteceu no passado. Aquilo que fizeram contra nós. Aquilo que possamos ter feito contra os outros. Trechos ocultos da vida, revisitados em culpa e rancor, negando a redenção da cruz, fazem apodrecer num piscar de olhos tudo aquilo que tocamos.
Alguns episódios da nossa história parecem ser injustos. O sofrimento e a solidão de não entregar tudo a Deus em confissão tem a narrativa histórica modificada e deturpada. Criamos uma nova história de vida, justificamos e racionalizamos os erros e decisões (pecados) que são verdadeiramente os componentes que formam cada indivíduo.


“Simão Pedro, servo e apóstolo de Jesus Cristo, aos que conosco obtiveram fé igualmente preciosa na justiça do nosso Deus e Salvador Jesus Cristo, graça e paz vos sejam multiplicadas, no pleno conhecimento de Deus e de Jesus, nosso Senhor. Visto como, pelo seu divino poder, nos tem sido doado todas as coisas que conduzem à vida e à piedade, pelo conhecimento completo daquele que nos chamou para a sua própria glória e virtude, pelas quais nos têm sido doadas as suas preciosas e mui grandes promessas, para que por elas vos torneis co-participantes da natureza divina, livrando-vos da corrupção das paixões que há no mundo, por isso mesmo, vós, reunindo toda a vossa diligência, associai com a vossa fé a virtude; com a virtude, o conhecimento; com o conhecimento, o domínio próprio; com o domínio próprio, a perseverança; com a perseverança, a piedade; com a piedade, a fraternidade; com a fraternidade, o amor. Porque estas coisas, existindo em vós e em vós aumentando, fazem com que não sejais nem inativos, nem infrutuosos no pleno conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo. Pois aquele a quem estas coisas não estão presentes é cego, vendo só o que está perto, esquecido da purificação dos seus pecados de outrora. Por isso, irmãos procurem, com diligência cada vez maior, confirmar a vossa vocação e eleição; porquanto, procedendo assim, não tropeçareis em tempo algum. Pois desta maneira é que vos será amplamente suprida a entrada no reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.” 2Pedro 1.1-11.

          O arrependimento causa quebrantamento e não endurecimento (Hebreus 3.15). Na comunhão com o Senhor, temos o direcionamento divino que soluciona os problemas mais fatais imagináveis. Como quando Elias se escondeu na caverna. Ao ser chamado por Deus, ouviu o Senhor, confiou e obedeceu (1Reis 19.13-15). Mais ainda, somos assegurados que Deus é o autor e é o proprietário da nossa saga, faz tudo em seu tempo para o seu propósito (Eclesiastes 3.1-8). A Bíblia nos assegura a alegria do Senhor em pequenos ou grandes feitos (Eclesiastes 11.9 e 12.1).

          Olhar honestamente para o passado deve levar ao perdão. Infelizmente não podemos mudar a história, quer seja quando ferimos ou quando fomos feridos. A glória de Deus se manifesta na redenção em Cristo. O verdadeiro perdão tem realmente libertado pessoas do passado. Perdoar os outros, ou quem sabe até a si mesmo. E o maior exemplo disso é o próprio Deus. Ele nos perdoa e joga o nosso ‘passado’ lá no fundo do mar (Miquéias 7.19). Essa figura de linguagem mostra como Deus lida de maneira misericordiosa e sadia com o nosso passado, se houver arrependimento.
“Se o meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar, e orar, e me buscar, e se converter dos seus maus caminhos, então, eu ouvirei dos céus, perdoarei os seus pecados e sararei a sua terra.” 2Crônicas 7.14.
          Meu pai sempre falou que pedir desculpas não é bíblico! Sim! Não há pessoa que possa tirar a culpa daquilo que fazemos. O débito (culpa) do pecado foi quitado no calvário. Por pecados na ignorância da vida sem Jesus e aqueles que ainda seriam cometidos A Bíblia manda confessar os pecados a Deus, e à pessoa ofendida. E a confissão verdadeira envolve uma mudança de caminho (arrependimento).
“Filhinhos meus, estas coisas vos escrevo para que não pequeis. Se, todavia, alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo; e ele é a propiciação pelos nossos pecados e não somente pelos nossos próprios, mas ainda pelos do mundo inteiro.” 1João 2.1e2. E ainda: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça.” 1João 1.9.
          É horrível remoer o passado. Pior é esquecer. O pecador redimido se lembra do perdão que recebeu. Onde havia um superávit de pecado, depois da vitoria pela fé no filho de Deus, transborda a graça. Quando aquele filminho da vida fica rodando na mente, quando somos denunciados a nós mesmos daquilo que fizemos é preciso atentar que o Senhor passou por cima da nossa história e ofertou por doação (per-dão) da sua Graça. A resposta dos redimidos a essa Graça é a obediência à palavra revelada (Bíblia) inculcada na mente amadurecida. Ninguém deixa de pecar nessa terra. Aliás, o momento certo onde se encerram os pecados é na morte do corpo. Eis a razão da oração. A entrega a Deus de nossas ansiedades e o confiança de que sua paz guarda o coração (Filipenses 4.6-7).

          O processo de reabilitação exige um exercício de revisitar a história honestamente, confessar (reformular o pensamento), e perdoar quando fomos ofendidos. Sabendo ainda que: aquele que por intermédio de quem todas as coisas que são, vieram a ser, foi violentamente ofendido – O Rei dos reis se entregou como ovelha que vai ao matadouro. Raciocinar, fazer as perguntas certas a si mesmo a fim de perceber a fantasia do pensamento – “se minha vida fosse assim aí eu seria feliz”. Será que acabariam as lutas da vida. Haveria uma ausência total de problemas? Livraria você dos desafios? (Lamentações 3.19-21). E a partir daí é bom raciocinar o que se pode fazer para melhorar o hoje – mas perceba que esse já é outro raciocínio, não mais ligado ao passado, mas ao futuro. Não ao que fui, e nem mesmo ao que sou, mas vislumbrando aquilo que serei. Bendigo o SENHOR, que me aconselha; pois até durante a noite o meu coração me ensina. Salmo 16.7.

          A resposta não é simplesmente o autoconhecimento ou perdoar a si mesmo. Mas sim, aprender, sobre Deus e sobre a vida, então descobrir quem somos diante de Deus. Conhecer a Deus é o verdadeiro autoconhecimento. O Salmo 78 aplica a redenção do passado, nos acertos e erros de um povo que não poderia esquecer sua história a fim de não errar no presente. Para que possuindo o testemunho deles, no futuro reflitamos completamente o caráter de Deus.

          Ao obedecer no passado, somos fortalecidos para o futuro. No arrependimento do pecado, também. O fato é que as coisas são como são e nem como ‘deveriam’ ser. Ouvi uma citação que foi creditada a Sartre, eu não sei se procede dele, mas aqui vai: “Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você.” Ninguém precisa da máquina do tempo. Eu descobri um único acesso ao criador do tempo, que no seu plano de comunhão me deu e me dá provas (note o duplo sentido: avaliação de desempenho e evidências) do seu amor. Nesse aprendizado de quem Deus é, fui reprovado muitas vezes. Em algumas áreas eu ainda estou “de recuperação”!

          Recentemente descobri que uma cicatriz de ferida muito antiga me aprimorou na ajuda a um irmão que precisava de ataduras e unguento. Conhecendo o tipo de ferida, pude mostrar a ele um remedo mais eficiente.
“Também o Espírito, semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza; porque não sabemos orar como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós sobremaneira, com gemidos inexprimíveis. E aquele que sonda os corações sabe qual é a mente do Espírito, porque segundo a vontade de Deus é que ele intercede pelos santos. Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito. Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou.” Romanos 8.26-30.

Daniel

Comentários

  1. Muito bom! Que do passado de pecados possamos olhar o próximo com misericórdia e usar a experiência para ajudar ao necessitado a não repeti-la ou agir rápido para se redimir com o ofendido. Deus.

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